sábado, 19 de junho de 2021

APELO DE UM DONZELO

 

(Cícero Manoel)

 

 

 

Eu não sou um rapaz feio,

Mãe disse que sou bonito.

Pois como mãe nunca mente,

Na minha mãe acredito.

Não ando desarrumado,

Também não sou esquisito.

 

 

Sou muito trabalhador,

Tenho terra pra plantar.

Dinheiro tenho de sobra,

Tenho casa pra morar.

Só falta mesmo uma moça

Pra comigo se casar.

 

 

Mas pro lado de namoro

Minha vida é azarada,

Desde os meus dezoito anos

Que procuro namorada.

Já vou fazer trinta e nove

E nunca achei uma amada.

 

 

E eu não tenho vergonha

De dizer que sou donzelo.

Eu não consigo entender

Porque um moço tão belo

Nunca acha uma mulher

Pra cuidar do seu castelo.

 

 

Se eu paquero uma moça

Levo logo um “fora” dela.

Mandei um beijo pra uma,

Outro dia, da cancela.

Ela jogou-me uma pedra

Que feriu minha costela.

 

 

Beijo na boca, eu confesso,

Eu só dei um nessa vida.

Foi numa velha banguela

Que era muito enxerida,

A velha lambeu meu beiço

E me deu uma mordida.

 

 

Paguei a uma mulher

Pra ela dormir comigo,

Mas paguei adiantado

E lhe esperei no abrigo,

Ela levou meu dinheiro

E dormiu com meu amigo.

 

 

Amei uma linda moça,

Quase morri de desgosto,

Falei pra lhe namorar

Numa manhã de agosto,

A moça cuspiu no chão

E deu-me um tapa no rosto.

 

 

Uma moça encalhada

Um dia me escreveu.

Queria casar comigo,

Uma esperança nasceu.

No dia que eu fui lhe ver

A miserável morreu.

 

 

Não posso morrer solteiro

Vou casar se deus quiser!

Não posso morrer donzelo

Preciso de uma mulher.

Só vou ter felicidade

Quando uma esposa eu tiver.

 

 

Se você sabe onde tem

Uma moça encalhada,

Que queira um rapaz bonito,

Com uma vida arrumada,

Fale de mim para ela,

Por favor, não custa nada!

 

 

Se você está solteira

E procura um namorado,

Pode vir me procurar

Que eu sou um moço prendado,

Lhe serei muito fiel

E muito apaixonado.

 

(Residencial Jussara – Santana do Mundaú – AL / 11 de junho de 2021)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

A CENA DA CACIMBA

 (Cícero Manoel)

 

Eu ainda era um donzelo,
Um sujeitinho magrelo 
Desses da cara lambida. 
Quando em uma tarde plena, 
Eu vi a mais linda cena 
De toda a minha vida.
 
Eu era um adolescente 
De quinze anos, somente, 
Vivia como um qualquer. 
Com meu jeito ameninado, 
Nunca tinha reparado 
Direito em uma mulher. 
 
Mas para mim a donzela 
Mais formosa e mais bela 
Lá no nosso interior, 
Era a prima Açucena, 
Uma bonita morena 
Do sorriso encantador. 
 
Foi quando em nossa casinha,
Faltou água na cozinha 
E mamãe veio ao terreiro. 
Me viu e foi me dizendo: 
-- Vá na cacimba correndo, 
E traga água ligeiro! 
 
Botei um balde de lado 
E a água apressado 
Na cacimba fui buscar. 
Quando fui chegando nela, 
Eu vi a coisa mais bela 
Que eu já pude avistar. 
 
De relance eu vi a cena: 
Minha prima Açucena 
Tomando banho despida. 
Essa cena preciosa, 
Foi ela, a mais prazerosa, 
Que eu já assisti na vida. 
 
Numa moita me escondi, 
Dali escondido eu vi 
Ela molhando os cabelos. 
Em seu corpo as mãos passando, 
Abrindo a boca e fechando 
Acariciando os pêlos. 
 
Observei direitinho 
As curvas do seu corpinho 
Formoso e bem desenhado. 
Enquanto a espionei, 
De boca aberta fiquei,
No meu canto, deslumbrado. 
 
Meu balde caiu da mão, 
Ela percebeu, então, 
Que tinha alguém lhe vendo.
Apressada se vestiu 
E assustada saiu 
Pra sua casa correndo.
 
Levei a água pra casa 
E quente como uma brasa 
Não parava de pensar, 
No corpinho priminha, 
E na cena que eu tinha 
Acabado de avistar. 
 
E depois daquele dia 
Na cacimba eu sempre ia 
Pra ver se eu a via nua. 
Mas não vi mais a danada, 
Uma tarde a desgraçada 
Fugiu com um cabra da rua. 
 
Hoje já em alta idade,
Eu tive a felicidade 
De ver muita cena bela. 
Mas garanto a quem me incita, 
Que a coisa mais bonita 
Que eu já vi foi aquela. 
 
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Jussara – Santana do Mundaú – AL 
11 de fevereiro de 2021

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

MEU NASCIMENTO

(Cícero Manoel)


Eu nasci no ano Mil

Novecentos e Noventa.

Dia vinte de setembro

Numa tarde bem cinzenta

Em Garanhuns – Pernambuco

Uma cidade frienta.

 

Quinze pras cinco da tarde,

Com o poder de Jesus,

Lá no Hospital Dom Moura,

Usufruindo do SUS,

Num parto cesariano

Minha mãe me deu a luz.

 

Sou filho de Severina

E também de Severino.

Primos de primeiro grau,

Assim foi o meu destino,

Mãe queria uma menina,

Mas Deus mandou um menino.

 

Quando o médico deu alta

À minha mãezinha bela,

Pra cidade de Correntes

Eu fui levado com ela

Ali naquela cidade

Residiam os pais dela.

 

Lá na casa de seus pais

Assim que a gente chegou

Logo minha vó Maria

Na bacia me banhou,

E papa na minha boca

Com o seu dedo botou.

 

Por Cícero Manoel

De Lima Alves fui chamado.

Ali mesmo em Correntes,

Assim eu fui registrado.

Naquela mesma cidade

Eu também fui batizado.

 

Meu avô Nezinho Elias

E a minha vó Maria,

Foram padrinhos de vela,

Me levaram para a pia.

E me fizeram cristão

Com prazer e alegria.

 

 

Depois de um mês de nascido

Visto por muitas pessoas,

Fui levado de Correntes,

Levando alegrias boas

Para a casa do meu pai

No estado de Alagoas.

 

Pra cidade de Santana

do Mundaú fui levado.

E lá no Sítio Ilha Grande

Com muito amor fui criado

Num lugarzinho bonito

E por Deus abençoado.

 

Numa casinha de taipa

Me criei com alegria,

Nas terras do vô Mané,

Homem de muita energia,

Pai do meu pai Severino

E irmão da vó Maria.

 

Ali eu cresci sonhando

Na nossa pobre casinha.

No terreiro de vovô

Ouvia toda tardinha

As histórias de trancoso

Da minha vovó Zefinha.

 

Eu contei meu nascimento

Como contaram pra mim.

Se eu nascesse de novo

Queria que fosse assim.

O homem conta o que vive

Só nunca conta seu fim.

 

Residencial Jussara – Santana do Mundaú-AL

15 de agosto de 2020